domingo, 29 de novembro de 2015

Ser inteira*

Passei o dia pensando em escrever sobre a data de hoje. Há exatos seis meses eu colocava os pés em solo brasileiro novamente e ainda consigo sentir as emoções contraditórias daquelas 23 horas que separaram a saída de Sydney da chegada em Porto Alegre. Ainda busco respostas para a pergunta que tanto ouvi ao anunciar a decisão de encerrar o intercâmbio. O porquê daquela data e daquele momento continuam a fugir de mim.

Entrei naquele avião movida pelo sentimento de que era a coisa certa a fazer, mesmo sem explicação. Quando lembro da descida no Aeroporto Salgado Filho consigo escutar mais uma vez os gritos da família e dos amigos que aguardavam do lado de fora e conseguiram me ver caminhando em direção à esteira de bagagens. Os cinco minutos seguintes, entre pegar as malas e empurrar o carrinho na direção deles, duraram a eternidade. Passei pela porta de vidro anestesiada, tremer me fazia ter certeza de que estava ali ao mesmo tempo em que não conseguia entender que eu estava de volta. De fato tinha embarcado para casa, ainda que meu conceito de casa estivesse totalmente desconstruído.

Abraçar todo mundo - sem derramar uma lágrima porque é de um jeito bem torto que lido com as emoções - foi inexplicável, indescritível... Parecia que nunca tinha me separado deles, que eu tinha embarcado para a Austrália na semana anterior. O tempo me intriga, principalmente depois desses 12 meses que passei tão longe de tudo e de todos que sempre foram o meu mundo. Agora, seis meses depois da chegada, ele instiga novamente. Sinto como se tivesse voltado há anos e sinto que foi ontem que andei a última vez pela George Street e por Dee Why.

Sempre busquei ser inteira em tudo o que vivo. Logo que descobri o que era poesia decorei os versos de Fernando Pessoa que dizem “para ser grande sê inteiro... sê todo em casa coisa” e usei como mantra. Acontece que há seis meses meu inteiro perdeu um pedaço. A vida andou, a mudança chegou, a saudade virou de lado e descobri que é impossível ser esse todo inteiro quando uma parte de nós pertence a outro mundo. 

Sabia que não seria fácil voltar, mas obedeci ao sentimento de que era necessário. Esse mesmo sentimento que há um mês me trouxe para um lugar novo, no qual nunca imaginei morar, e que, espero, vai continuar me levando para outros lugares diferentes. Porque no fim meu desejo é apenas continuar em movimento deixando um pouco de mim por aí e levando comigo o que for verdadeiro. As respostas de cada mudança virão ou não, mas continuarei sendo movida pelos questionamentos.

*Texto escrito em 17 de maio de 2015

2 comentários:

  1. Oi Léli! Nossa, estou amando o seu blog! Estou com planos de ir para a Austrália, e as informações que você tem apresentado têm sido ótimas! Obrigada por dividir essa experiência!

    ResponderExcluir
  2. Curti seu blog! Você continua escrevendo em outro blog? Onde podemos te acompanhar? Também morei na Australia tem uns 6 anos! As vezes tenho muita vontade de voltar. Enfim, espero saber mais novidades.

    ResponderExcluir

Obrigada pelo comentário. Continue acompanhando esta viagem!