domingo, 29 de novembro de 2015

Ser inteira*

Passei o dia pensando em escrever sobre a data de hoje. Há exatos seis meses eu colocava os pés em solo brasileiro novamente e ainda consigo sentir as emoções contraditórias daquelas 23 horas que separaram a saída de Sydney da chegada em Porto Alegre. Ainda busco respostas para a pergunta que tanto ouvi ao anunciar a decisão de encerrar o intercâmbio. O porquê daquela data e daquele momento continuam a fugir de mim.

Entrei naquele avião movida pelo sentimento de que era a coisa certa a fazer, mesmo sem explicação. Quando lembro da descida no Aeroporto Salgado Filho consigo escutar mais uma vez os gritos da família e dos amigos que aguardavam do lado de fora e conseguiram me ver caminhando em direção à esteira de bagagens. Os cinco minutos seguintes, entre pegar as malas e empurrar o carrinho na direção deles, duraram a eternidade. Passei pela porta de vidro anestesiada, tremer me fazia ter certeza de que estava ali ao mesmo tempo em que não conseguia entender que eu estava de volta. De fato tinha embarcado para casa, ainda que meu conceito de casa estivesse totalmente desconstruído.

Abraçar todo mundo - sem derramar uma lágrima porque é de um jeito bem torto que lido com as emoções - foi inexplicável, indescritível... Parecia que nunca tinha me separado deles, que eu tinha embarcado para a Austrália na semana anterior. O tempo me intriga, principalmente depois desses 12 meses que passei tão longe de tudo e de todos que sempre foram o meu mundo. Agora, seis meses depois da chegada, ele instiga novamente. Sinto como se tivesse voltado há anos e sinto que foi ontem que andei a última vez pela George Street e por Dee Why.

Sempre busquei ser inteira em tudo o que vivo. Logo que descobri o que era poesia decorei os versos de Fernando Pessoa que dizem “para ser grande sê inteiro... sê todo em casa coisa” e usei como mantra. Acontece que há seis meses meu inteiro perdeu um pedaço. A vida andou, a mudança chegou, a saudade virou de lado e descobri que é impossível ser esse todo inteiro quando uma parte de nós pertence a outro mundo. 

Sabia que não seria fácil voltar, mas obedeci ao sentimento de que era necessário. Esse mesmo sentimento que há um mês me trouxe para um lugar novo, no qual nunca imaginei morar, e que, espero, vai continuar me levando para outros lugares diferentes. Porque no fim meu desejo é apenas continuar em movimento deixando um pouco de mim por aí e levando comigo o que for verdadeiro. As respostas de cada mudança virão ou não, mas continuarei sendo movida pelos questionamentos.

*Texto escrito em 17 de maio de 2015

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Coragem – sobre idas e voltas



Quando decidi embarcar para um intercâmbio na Austrália a frase que mais escutei foi que eu tinha muita coragem. Normal despertar este sentimento já que somos criados para estudar, trabalhar, construir uma família, ter estabilidade financeira e fim. Os conceitos de lutar pelos nossos sonhos e de que o importante é ser feliz são lindos, mas na prática viram ilusão devido ao medo de sair da linha traçada pela regra social. Viram um blá, blá, blá tão clichê quanto repetir no meio do caos que tudo acabará bem e que no final tudo dará certo – muitas vezes sem nem acreditar de verdade nisso.

Enfim, quando entrei naquele avião sabendo que do outro lado do mundo eu era esperada por tantas incertezas também pensei que estava sendo corajosa pra caramba. Acontece que quando rompemos os padrões, quando atravessamos o temor causado pelo desconhecido acabamos por perceber que do outro lado o que há é um mundo inteiro de coisas incríveis para serem descobertas. Somos surpreendidos pelo autoconhecimento e entendemos que dentro de nós existem sentimentos, desejos, forças e capacidades nunca explorados. Enxergamos outra pessoa em um corpo que nos acompanha desde sempre, mas que esconde muito mais do que mostra.

Vista com novos olhos, a vida nunca mais será a mesma. Nós nunca mais seremos os mesmos. Depois que tiramos a venda daquela realidade que conhecíamos como absoluta, coragem de verdade é voltar para ela. É ter de enfrentar os padrões de antes sem caber mais neles e ter que reconstruir a vida dentro de um sistema que não faz mais sentido. Realmente cruzar o globo para viver em outro país requer coragem, mas não para enfrentar o que estará por lá e sim para encarar a volta e o fato de que a vida que levávamos era apenas uma das tantas possibilidades existentes, que tantas coisas na qual acreditávamos podem ter outro ponto de vista e que uma mente expandida jamais voltará ao tamanho original (exatamente como Einstein alertou há dezenas de anos).

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Os porquês

Sydney Airport
Quando conto que estou voltando para o Brasil a pergunta que escuto é sempre a mesma: mas por quê? E a resposta é que não tenho uma resposta. Percebo imediatamente aquela cara que mistura pena e um ar de “ela só pode ser louca de voltar assim por nada”. Acontece que este tempo longe de tudo e de todos me ensinou como nunca a prestar atenção nos sentimentos profundos e seguir o coração mesmo que inicialmente a decisão pareça não fazer sentido.

Outra frase comum neste momento é: não volta por saudade! E, me desculpem amigos e família, não estou voltando por saudade. As pessoas que amo vivem no Brasil e sim me fazem uma falta insubstituível, porém eu aguentaria mais tempo longe. Diria até muito tempo longe. Acontece que por mais incrível que seja a experiência vivida chega um momento em que ela deixa de fazer sentido sem ter com quem compartilhar. É, eu sei que é difícil entender. É muito íntimo e intenso este sentimento.

Confesso que nas primeiras vezes a tal pergunta do porquê me deixou pensativa e fez questionar a decisão enquanto ainda dava tempo. Sempre digo que são as perguntas que nos movem e não as respostas e foi justamente me fazendo pensar que construí a certeza de que este é o momento de ir. Além da felicidade, por enquanto só imaginada, de reencontrar tantas pessoas queridas eu terei a chance de descobrir quem eu sou depois de tudo o que aconteceu neste ano inteiro. Porque definitivamente não sou a mesma.

Acredito ser impossível passar por uma experiência de intercâmbio sem se transformar e é justamente a mudança que faz a volta para casa ser sempre tão difícil, dizem. Pesquisas psicológicas afirmam que pode chegar a dois anos a readaptação no país. Sei que comigo não será diferente, mas não posso ficar presa em uma realidade que não é a minha por covardia. E pensando bem este desafio virou justamente uma das razões para o retorno. Quem sou eu afinal? Como esta pessoa que eu conheço bem aqui na Austrália irá se comportar em casa? Vou gostar das mesmas coisas e, principalmente, querer as mesmas coisas que queria antes?

Eu preciso saber como e o quão diferente será estar de volta e passada a felicidade inicial preciso observar quais serão os sentimentos. Será que vou estar em casa? Será que vou caber nos mesmos rótulos que usava antes? Como eu poderia abrir mão de tudo o que amo para viver sozinha em um país que não é o meu sem nem ao menos testar os sentimentos e ter certeza de que não é a vida no Brasil que eu quero para mim?


Por mais apaixonante que a Austrália seja e por mais que eu me sinta em casa em Sydney é preciso voltar porque não é apenas um país que está em jogo. Quando embarquei deixei para trás uma vida inteira cheia de pessoas e lugares que eu amo. Seria necessário ter certeza de que não pertenço mais ao que ficou por lá antes de simplesmente abdicar de tudo para sempre. Se eu fico, se eu volto ou se vou para outro lugar qualquer? O tempo dirá.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Quero morar na praia

Dee Why Beach - fotos by me :)
Acredito que pelo menos 99% das pessoas que resolvem viver na Austrália pensam em morar na praia. Claro que comigo aconteceu o mesmo. Porém, logo que cheguei não era um bom negócio mudar para longe da escola tendo aula todos os dias na “City” – como chamamos o centro de Sydney.
O transporte público aqui é totalmente eficiente, tanto que é comum ver executivos e mulheres de negócios dividindo o ônibus e o trem conosco estudantes-estrangeiros-pobre-coitados. No entanto, paga-se um preço alto por isso, o que é justo, mas torna a distância algo um tanto inviável no cotidiano.
Levando isso em consideração, decidi que quando terminasse o inglês renovaria o visto para fazer um curso com aulas semanais e moraria na praia. Perfeito. Exceto pelo fato de que insisto em bolar planos e a vida faz tudo ser diferente.
A dois meses de terminar o curso um amigo comentou que ele e outros dois amigos nossos iam dividir um apartamento e que faltava uma pessoa para fechar as vagas.  Nesse meio tempo eu estava morando com outras oito pessoas, sendo sete gringos, e não aguentava mais dividir quarto com três meninas e ter que compartilhar do barulho e bagunça alheia.
O valor do aluguel estava dentro do orçamento, a data da mudança fechava com a minha saída da atual casa e seríamos apenas quatro pessoas com um apartamento inteiro para nós. O único porém era que isso tudo aconteceria na praia de Dee Why a 25 quilômetros do centro de Sydney em direção ao norte.
Depois de cinco meses morando com estranhos a ideia de dividir casa com amigos foi tentadora. Além disso, descobri que o apartamento ficava a três quadras da praia e que dois dos meus futuros “flatmates” eram ótimos cozinheiros. Bati o martelo e resolvi, pela primeira vez, ter vida de cidade grande, enfrentar trânsito e passar mais de uma hora no transporte coletivo.
Não vou mentir que às vezes é cansativo sair de um dia de trabalho e ainda levar mais de 40 minutos para chegar em casa, mas quando desço do ônibus e respiro o ar de praia penso: “ainda bem que moro aqui”. As pessoas acham que sou louca e escuto com bastante frequência a piadinha de que faço uma viagem para ir pra casa. Desisti de explicar, só sentindo para saber.
Vista aérea da praia de Dee Why
Dee Why é uma praia cheia de estrutura e fica a apenas 10 minutos de Manly que é um dos lugares mais famosos de Sydney e tem praticamente vida própria, como se fosse uma cidade dentro da cidade. Alguém que estuda em Manly e trabalha pelas praias do norte não tem necessidade alguma de ir até o centro.
O único transporte público disponível para chegar até Dee Why é ônibus. Dizem que a ideia de expandir o trem para estes lados foi cogitada e logo descartada por pressão da comunidade local. Segundo os moradores, facilitar o acesso às Northern Beaches acabaria com o ar mais “nativo” que há por lá. Sydney é tomada por asiáticos, especialmente chineses, e os australianos estão bem cansados disso.
Embora também não falte brasileiros pela Austrália, felizmente, somos mais bem-vindos por aqui. Há boatos de que Dee Why é uma das praias que mais tem brasileiros morando, tanto que há um mercado que vende produtos do nosso país. Entre os mais vendidos está a erva mate e aos finais de semana não é difícil ver uma cuia de chimarrão no calçadão da praia.

Pude perceber a identificação dos gaúchos com Dee Why logo que mudei e virei tão bairrista quanto sou no Rio Grande do Sul. Quem mora em Dee Why, mesmo que admita o quanto é longe, pensa que esta é a melhor praia da Austrália e não troca por nenhuma outra. Sei que temos uma tendência ao exagero, mas o fato é que sempre olho para a sua paisagem exuberante e sinto mesmo que estou em um dos lugares mais lindos do mundo.

Com tantas mudanças já entendi que não adianta fazer muitos planos, por isso não sei o que está por acontecer nos próximos meses. Entretanto, a possibilidade de mudar de Dee Why nem passa pela minha cabeça porque se escolhi morar na praia quero que seja na melhor de todas!


Domingo de outono em Dee Why

domingo, 29 de junho de 2014

Dos filhos deste solo

E o grito de Pátria Amada Brasil sai ainda mais forte quando se está fora. Porque apesar de todos os pesares temos orgulhoso de ser brasileiros e este sentimento cresce quando passamos a ver o quanto as pessoas admiram o nosso país e o quanto, aos olhos do mundo, os nossos melhores valores são relevantes.

Onde há seres humanos há problemas e sim todo país tem os seus. No entanto, nos sentimos desconfortáveis com os nossos, admitimos nossos erros, não temos vergonha de mostrá-los e, ainda desajeitadamente e sem saber qual exatamente deve ser o caminho a percorrer, queremos ser melhores um dia.

Mesmo com todo o contexto vergonhoso desta Copa do Mundo não resistimos torcer pela Seleção Canarinho porque além de amarmos futebol ele é o que ainda consegue despertar o nosso brio. Ele é a nossa referência no mundo e não se trata mais de desempenho, há tempos não somos mais o que um dia fomos, mas nada muda a magia da camisa verde e amarela quando ela entra em campo.

Acontece que temos potencial para ser mais que isso e não conseguimos enxergar. Culpa dessa cultura pessimista secular e de um hábito inerente ao brasileiro, a reclamação. A nossa grama nunca será tão verde quanto à do vizinho simplesmente porque pisamos na nossa para ficar admirando a dele.

Sair do Brasil não me fez querer ficar fora para sempre e respeito quem tem este sentimento, mas eu escolho lutar pelo meu país ao invés de desistir dele. E quero acreditar que um dia o nosso grito de Pátria Amada Brasil não será apenas fruto de um orgulho passageiro em tempos de copa do mundo.




quarta-feira, 21 de maio de 2014

No improviso: Road Trip Jervis Bay

Eram três da tarde de uma sexta-feira qualquer quando o Lucas me ligou: - tu e a Rita são parceiras de alugarmos um carro hoje e sairmos amanhã bem cedo para Jervis Bay?. Hoje? Como assim? E onde fica isso? - Ah, e como tu é a mais velha a ter carteira de motorista vais ter que ir dirigindo. Dirigir? Não precisei de mais nenhum argumento para comprar a ideia. Mandei mensagem para a Rita no mesmo momento: vamos para Jervis Bay amanhã bem cedo de carro alugado! Avisa o chefe que precisas de folga e partiu”.

Quem teve a ideia da viagem foi o Fábio, que assim como o Lucas é brasileiro. Nos conhecemos todos na residência de estudantes, logo nas primeiras semanas de intercâmbio. Na trip, além de nós, também estavam quatro colegas de escola do Fábio que iriam em um segundo carro, mas isso eu só fui descobrir depois e aqui o que menos custa é fazer novas amizades.

Cerca de duas horas depois do telefonema entramos na locadora de carros mais barata que eles encontraram. Eu, minha carteira de motorista brasileira, um cartão de crédito internacional que ainda não sabíamos se ia funcionar e o nosso inglês praticamente tupiniquim. No fim, fomos atendidos com paciência e acabamos decidindo pegar o carro no sábado pela manhã. Transporte garantido, alguém resolveu fazer uma pergunta pertinente - onde vamos dormir? A essa altura não tínhamos muito o que pensar, - pegamos umas barracas e procuramos camping por lá.

Sábado bem cedo nos encontramos no local combinado e enfrentamos 40 minutinhos de caminhada até a locadora. O espírito da viagem era não gastar dinheiro desnecessariamente com táxi ou ônibus, por exemplo. Burocracia resolvida, dois Corolas Hatch na mão, enchemos os porta-malas e descobrimos que ninguém tinha barraca ou qualquer equipamento de camping. - Paciência, agora vamos de qualquer jeito. Eu só conseguia pensar em pegar a estrada logo e dirigir na minha primeira Road Trip pela Austrália.

Foi tudo tão rápido que por alguns momentos esqueci que eu nunca tinha dirigido na mão inglesa, ou seja, do lado direito do carro e com todas as regras de tráfego ao contrário. Vivendo há alguns meses em Sydney eu já sabia me comportar como pedestre neste sistema, mas enfrentar trânsito? Chave na ignição, banco e espelhos ajustados, uma rápida aula de como usar o câmbio automático (sim eu nunca tinha usado um) e o frio na barriga foi inevitável.

Princes Highway

Com o GPS programado e o Lucas na posição oficial de copiloto saímos da locadora. Precisávamos dobrar para a esquerda e... subi no cordão da calçada. Freio. Pânico. – Todos vivos? Respira. Lucas pálido: - quer que eu tente ir? Imagina, agora é questão de honra. O nosso cérebro é uma coisa engraçada, por mais consciência que eu tivesse de estar no lado oposto do habitual, a minha noção de espaço continuava como se nada tivesse mudado. Mas aos poucos fui acostumando e começou a diversão.

Música, risadas, planos para o final de semana (já que até o momento nem tínhamos pensado em nada), fotos, vídeos e uma luz estranha acendendo no painel. – Galera acho que tem alguma coisa errada. Mas seguimos. Alguns quilômetros depois a temperatura do carro estava altíssima e precisamos parar em um posto. Capô aberto, motor torrando, muita fumaça e a discussão de quem tinha o melhor inglês para falar com a atendente da locadora. Pelo o que conseguimos entender teríamos que esperar até mandarem alguém, depois de abrir um chamado e blá blá blá. Resolvemos tentar seguir viagem devagar e prestando mais atenção no carro. Deu certo.


Como já passava do meio-dia escolhemos a primeira cidadezinha que apareceu no caminho, Kiama, para comer alguma coisa que não fosse MacDonalds. A ideia foi despretensiosa, mas acabamos indo parar no meio de uma feira de carros antigos, tunados, modificados e expostos ao ar livre na beira da baía. Encontramos ali o cachorro quente mais sem gosto que já comemos na vida, mas o cenário era tão perfeito que ninguém deu bola para o almoço frustrado.

Exposição de carros em Kiama

Almoço com vista para o mar

A experiência de entrar em um lugar aleatório foi tão legal que decidimos ir parando em todas as praias que estivessem pelo caminho. Foi quando nossos parceiros de viagem decidiram seguir direto para o destino final. Felizmente estávamos em dois carros e cada grupo fez a sua trip como achou melhor. Levamos o dobro, talvez o triplo, do tempo estimado até Jervis Bay, mas cada parada valeu a pena e nos mostrou o que estava por vir, porque os lugares ficavam cada vez mais lindos.

Gerringong Beach

Graças ao horário de verão, chegamos em Huskisson, principal localidade de Jervis Bay, ainda com sol alto. A primeira parada foi em um pub para tomar uma cerveja, relaxar da viagem e traçar os próximos passos. Racionalmente resolvemos procurar acomodação e o único hotel com disponibilidade estava totalmente fora do nosso orçamento. Então pegamos o carro e fomos explorar o lugar atrás das primeiras praias e talvez uma pousada ou qualquer coisa que não fosse camping, afinal não tínhamos barracas. Não encontramos.

Quase no final da tarde de sábado a decisão mais sábia que tomamos foi curtir o que restava do nosso dia e dormir no carro. Conhecemos as praias mais próximas, tomamos nosso primeiro banho de mar do final de semana e curtimos o pôr-do-sol. Antes de escurecer totalmente fomos para um local público com mesas de piquenique e comemos sanduíches aquecidos na churrasqueira de uns espanhóis que ocupavam o espaço e, gentilmente, nos deram um cantinho para colocar o pão.

Huskisson Beach

No fim, acabamos parando o carro no estacionamento ao lado do pub que conhecemos mais cedo. Ali havia um gramadão de frente para a praia e entre eles um banheiro público com chuveiros, onde tomamos banho, escovamos os dentes e nos abrigamos da chuva no final da tarde de domingo. O bom daqui é que banheiro público não é sinônimo de sujeira, ao contrário, eles sempre estão limpos, com papel e sabonete. Nossa estrutura estava muito melhor do que o esperado.

À noite teve música ao vivo no pub e não resistimos tomar mais uma cerveja. No palco um grupo de tiozões tocava um country no melhor estilo australiano e várias tiazinhas animadas dançavam sem se importar com o quão engraçado isso estava sendo. Show encerrado, todo mundo foi embora e nós estendemos a noite sentados no gramado, bebendo e vendo a lua cheia refletir no mar. Dormir no carro era apenas um pequeno detalhe no meio de um dia perfeito.





Vista de dentro do carro ao acordar.
No domingo acordamos com o sol e logo colocamos o carro a rodar. A meta do dia era fazer toda a costa da baía, que tem aproximadamente 15 quilômetros de extensão, conhecer o máximo possível de praias e aproveitar as que gostássemos mais. No total foram mais de dez praias, entre elas a que entrou para o Guinnes Book por ter as areias mais brancas do mundo, chamada Hyams Beach. Quebra de recordes à parte, o difícil é descrever o que vimos nesses lugares, belezas que nem as fotos conseguem mostrar.


Honey Moon Beach

Minha favorita - Long Beach

Entre uma praia e outra, passamos por estradas fantásticas, trilhas no meio da mata com o GPS parando de funcionar e encontramos até cangurus. Primeiro um deles cruzou correndo por nós do lado da estrada, depois conseguimos chegar perto de outros dois que estavam a alguns metros de umas cabanas que tentamos alugar. Embora não tenhamos conseguido tocar ou ficar muito tempo com eles deu para ter a sensação de ver um canguru pela primeira vez.


O dia todo foi de tempo bom e de muita praia, mas quando a noite caiu começou a chover e acabamos indo dormir cedo para pegar a estrada de volta para Sydney logo que o dia amanhecesse. Na volta, completamente adaptada à mão contrária, aproveitei meus últimos momentos ao volante. Depois de algumas horas de estrada, assim que entramos na cidade o GPS fez com que nos perdêssemos e ficássemos dando voltas e mais voltas sem conseguir encontrar o caminho da locadora, o que deu ao final da viagem o mesmo tom do início porque as aventuras não podiam acabar até tudo terminar.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Lágrimas

Hoje, dia 5 de maio de 2014 na Austrália, ainda 4 de maio no Brasil, eu chorei pela primeira vez de saudade. Pela primeira vez nesses cinco meses a saudade foi tão profunda que a dor pareceu insuportável. E pela pela primeira vez nesses dias de sonho realizado me perguntei o que eu estava fazendo, do que estava valendo estar tão longe. 

Deixei as lágrimas escorrerem como se elas fossem virar o oceano que me separa de casa e pedi forças, pedi por essa coragem que sei que existe dentro de mim, mas que por alguns minutos desapareceu. Virei a menininha assustada pelo escuro no meio da madrugada.

E foi uma criança de apenas cinco anos que despertou tudo isso com uma frase simples: "faltam muitos DIAS pra tu voltar?" Ele fez a pergunta que todo mundo quer fazer, ele quis a resposta que não tenho. Quantos dias? Tantos. Talvez mais do que eu acredito aguentar.

Constantemente penso em quando voltar e a decisão não é fácil. Porém hoje, pela primeira vez, me questionei se é possível fazer casa sem a presença das pessoas que amamos. Hoje o aprendizado foi que a felicidade de realizar um sonho não tem medidas, mas a dor pelo o que abrimos mão vem na mesma intensidade e é preciso entender que nunca poderemos ter tudo.


quarta-feira, 2 de abril de 2014

Mais pode ser menos

Antes de embarcar para Sydney questionei mil vezes a ideia de fazer um blog, principalmente porque não acreditava que teria algo a acrescentar com os textos. Escrever durante a viagem era inevitável, como em todos os momentos da minha vida, mas por qual razão eu publicaria esses pensamentos? Com Facebook, Instragam, Whatsapp e tantas redes sociais por aí um blog não seria necessário para compartilhar a experiência com ninguém. Acabei cedendo. E tentei fazer a ideia funcionar, mas a boa intenção não durou muito mais que um mês.

Sempre que faço contato com alguém no Brasil o início é estranho porque parece que não há o que contar, então começo a falar banalidades até que lembro algo legal que aconteceu, comento e a conversa começa a fluir. Essa situação me instigou e fui tentar entender o que acontecia. A resposta é uma só: é tudo tão novo todos os dias que fica difícil definir o que é novidade. Como selecionar o que contar para as pessoas quando simplesmente tudo parece importante ao mesmo tempo em que se perde na rotina?

Compreendendo esta situação consegui explicar o que acontece com o blog. Eu escrevo sempre, já escrevi muito nesses quatro meses. Acontece que não sei escolher o que vai virar post e o que vai ficar guardado para um dia ser lido só por mim. Uma viagem diferente é um bom post, porém um pequeno detalhe da vida na Austrália, mesmo que seja banalidade, também pode ser. Tudo aqui pode virar texto, todas as histórias podem ser interessantes e acaba sendo uma angústia pensar que não estou conseguindo compartilhar essas coisas incríveis com todo mundo que eu gostaria - com quase ninguém eu diria.

No fim, eu sempre serei a única a saber como é cada dia aqui e o mais importante é que tenho tantas pessoas torcendo para tudo dar certo, vibrando com o simples fato de saber que estou feliz e sentindo a minha falta tanto quanto eu sinto de cada uma delas. Sem dúvida todos os aprendizados, mesmo quando nem são compartilhados, não fariam sentido algum se eu não tivesse comigo os que estão ao mesmo tempo tão longe e tão presentes.

Anzac Bridge Sydney

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Sem meio-termo

Alguém que faz intercâmbio viaja disposto a conhecer pessoas diferentes, interagir, trocar e estabelecer novas amizades – talvez para a vida inteira. Comigo não foi diferente, entretanto, muitas vezes a agitação normal da experiência entra em conflito com um dos grandes objetivos deste projeto: autoconhecimento. Como me ouvir, me testar, me enxergar no meio de tanta gente com detalhes para chamar a atenção?

Nos primeiros dias fiquei deslumbrada com as histórias e queria poder sair gravando todas elas para um dia contar e reproduzir. Uma semana depois já não aguentava mais fazer as mesmas perguntas, já não prestava mais atenção nas respostas e comecei a perder a minha própria narrativa entre tantas narrativas. Precisava descer, parar, mesmo com o trem em movimento. Perdi a minha estação, ela ficou lá há pelo menos umas 30 horas.

Foi aos poucos que percebi o valor de conviver com a diversidade e a riqueza que este elemento poderia oferecer à descoberta. Porque lidar com amigos, família e até colegas é algo que aprendemos desde pequenos em casa e depois na escola. Mas para morar, dividir o mesmo teto e muitas vezes o mesmo quarto, com pessoas que possuem culturas totalmente particulares nós nunca estamos preparados.

Em uma viagem como esta, o exercício da paciência é diário e a tolerância passa a ser base de qualquer contato social. É preciso encontrar espaço para estar sozinho enquanto dribla a solidão e ao mesmo tempo em que aproveita o melhor da convivência com tantos perfis diferentes. Estar de frente com as próprias reações não é fácil e no fim das contas estou descobrindo que a melhor maneira de se conhecer de verdade é tendo que lidar com os outros em situação extremas. E aqui todos os momentos são assim, não existe meio-termo.


quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Cinco coisas


Outro dia um amigo meu e da Rita pediu para listarmos as primeiras cinco coisas que mais gostamos na Austrália. Ele cometeu o erro de mandar não economizarmos teclado e foi obrigado a ler quase um jornal só meu. Acho que ele não vai se importar que eu compartilhe a resposta:

- Se eu fosse obrigada a escolher uma coisa, uma única coisa, sem nem pensar seria: segurança! Sair do trabalho no meio da madrugada, pegar um bus, descer a cinco-seis quadras de casa e caminhar sem preocupação não tem preço. O detalhe é que tu ainda podes fazer o trajeto com o celular na mão, conectado no Skype. Sim, usando a internet 3G da operadora que aqui funciona de verdade (praticamente pelo mesmo preço pago Brasil).


A vida em Sydney é incrível, aqui todos os caminhos pelos quais tu passa são lindos. Por isso eu teria vários lugares para dizer que são os meus favoritos. Vale destacar o Darling Harbor (foto) por ter sido um dos primeiros pelos quais me apaixonei e por até hoje funcionar como uma espécie de injeção de ânimo – impossível ficar de mau humor naquele lugar. Talvez ele fosse o top da lista, mas esses dias descobri um parque bem escondidinho que virou o meu refúgio particular. Sempre que preciso ficar um pouco sozinha vou pra lá. É quase embaixo da Harbor Bridge, bem na beira d’água, e tem uma vista espetacular. Outro dia comprei uma bandeja de sushi e fui almoçar lá, até postei foto no face.


Como boa comunicadora/comunicativa que sou, sem dúvida a oportunidade de conversar (em português e inglês) com dezenas de pessoas dos mais diferentes lugares todos os dias simplesmente me encanta. Poderia escrever um livro com as histórias que já ouvi aqui e olha que meu inglês nem é tão bom, imagina quando melhorar! :P


Só tem uma coisa que me deixa mais feliz do que conversar com tanta gente, é ver a gentiliza das pessoas nesta cidade. Claro que existem os mal-educados, mas na maioria das vezes e dos lugares ninguém tem preguiça de te ajudar, todo mundo diz “sorry” e “thank you” para tudo (deveria ser básico né?) e o mínimo que tu recebe é um sorriso em qualquer situação.

A quinta e última coisa (foram cinco?) que eu adoro aqui é o hábito de esticar a canga e deitar em qualquer gramadinho que aparece pela frente. As pessoas fazem isso na praia, no intervalo do trabalho e da escola, cedo do dia para tomar café da manhã e tarde da noite para confraternizar com os amigos (neste caso sem álcool, claro, porque não pode beber na rua). Aqui tem estrutura para tu aproveitares os espaços públicos, tem árvores e jardins bem cuidados, iluminação, lixeiras, banheiros, bebedouros... E tudo de graça. Só fica em casa quem quer!

Tudo isso só não é melhor porque não tem a família e os amigos para aproveitarem junto. Neste caso, curtimos em dobro pra valer por vocês ;)

sábado, 28 de dezembro de 2013

Milagres acontecem

Hoje acordei feliz e pensei: eu estou aqui! Há exatamente quatro semanas eu estou aqui. Normalmente um mês tem 30/31 dias, mas no intercâmbio pode chegar a 60, 80 ou mais. É inimaginável o que se pode fazer em uma hora. Em 24 então, tudo muda. O tempo passa rápido enquanto parece mais longo devido à intensidade. Contraditório, eu sei.

No meio desta loucura de fuso horário e a avalanche de coisas em volta, foi preciso completar quatro semanas da mudança para conseguir colocar os pés no chão e acordar: eu vim, cheguei aqui! Agora é preciso apenas fazer as coisas acontecerem e embora eu já tenha entendido que não possuímos o controle de tudo, ganhei a oportunidade única de começar do zero e escrever o capítulo da minha vida que fala sobre a realização de um sonho.

Deixei escolhas feitas no meu país. Decidi ir para longe da família e amigos. Abri mão – temporariamente – de fazer uma das coisas que mais amo na vida, o jornalismo, e entrei naquele avião sem saber o que me esperava do outro lado do oceano, daquele lado do mapa que sempre foi tão distante para quem estudava geografia da América. Coragem? Desapego? Desprendimento? Será? Talvez. 

A única certeza que me move ainda é o desejo de voar, sem fronteiras, em direção a caminhos nunca pensados e em busca de ser alguém que está sempre em transição.


"Milagres acontecem quando a gente vai à luta!"


Transição - O Teatro Mágico

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Sem diversão


Passados mais de 15 dias em Sydney posso dizer que ainda não conheço nada da Austrália. Em qualquer viagem normal este tempo seria suficiente para visitar pelo menos os principais pontos e as paradas obrigatórias. Acontece que quando uma pessoa que tem a ansiedade no DNA muda para outro país, fazer turismo é a última coisa para a qual sobre tempo.

Desembarquei aqui com duas semanas de acomodação e achei que estaria tranquila. Porém logo nos primeiros dias, quando percebi que o tempo passa rápido demais, decidi que antes de tudo ia definir onde morar. Sem isso não conseguiria ficar relaxada. Por sorte antes da primeira sexta-feira o ap já estava garantido e eu poderia começar a conhecer as maravilhas deste lado do mundo.

Poderia mesmo, se eu não fosse neurótica e não tivesse dormido e acordado me questionando como pagaria o aluguel do tal ap em uma das cidades mais caras do mundo. E assim começou a busca por trabalho que, com a boa maré de sorte, não durou muito tempo. No primeiro dia já consegui vaga para trabalhar em um evento que aconteceria na final da semana e apenas dois dias depois de fazer contatos e enviar currículos surgiu mais um “job” (caído do céu).

Com isso, hoje meu saldo é: um novo endereço, duas vagas conquistadas, cinco dias de trabalho e uma boa grana para conseguir, agora sim, ter alguns dias de diversão sem ansiedade. Depois da espera a lista de lugares que quero conhecer só aumentou, claro, mas não seria eu se o começo da vida nova não fosse cheio de planejamento e estratégia – duas coisas que proporcionam aquela sensação ilusória de controle da qual tanto preciso. Afinal mudar de país não significa deixar te ter as nossas manias e neuras de cada dia.


Bondi Beach - Sydney
                         


quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Overdose de vida

Durante o processo de estruturação da viagem ouvi uma das frases que mais marcou este momento e é com ela que abro a série de posts que pretendo fazer nesses meses de vida australiana:

Intercâmbio é overdose de vida!

Logo nos primeiros dias em Sydney eu compreendi o significado destas palavras e pude ter ideia do que estava prestes a começar. Aqui uma semana é um mês, o novo amigo se transforma em confidente e a saudade deixa de ser mero capricho. Comer, morar, estudar e trabalhar são desafios diários e se conhecer - aprender a lidar com os próprios sentimentos - vira necessidade básica.

Como o desejo de voar para longe, romper barreiras e me colocar em prova sempre foi o maior propulsor desse projeto, descobrir o quanto as coisas são intensas por aqui faz o coração bater mais forte e ter certeza de que tudo virou realidade. Não é fácil acordar todos os dias sendo testado, mas quem disse que seria?

Se eu precisasse escolher apenas mais uma frase para definir esta experiência, diria: intercâmbio não tem glamour, é ralação pura! Para estar aqui é preciso ter isso claro, por mais que o teu país não te dê segurança, não valorize a tua profissão ou tenha corrupção, fora dele tu serás sempre um forasteiro.


The Royal Botanic Gardens - Sydney

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

O começo de tudo

Assim como costumam ter início os grandes projetos, a viagem para a Austrália começou com um sonho que virou realidade devido, principalmente, ao desejo de um movimento que denomino 'sair da bolha'. Nascemos, estudamos, seguimos as regras da sociedade, trabalhamos honestamente, pagamos nossos impostos, nos adaptamos à rotina e construímos em volta do nosso mundo uma bolha invisível da qual parece ser impossível fugir. 

A zona de conforto é confortável (como a palavra já diz) porque somos naturalmente criados para temer a mudança, somos medrosos. Portanto, romper as barreiras e invadir o desconhecido requer um esforço nada pequeno. Implica em decisões grandiosas e um investimento de tempo, dinheiro e energia. A empreitada, no entanto, é tão fascinante que ao transpor as escolhas iniciais é impossível pensar em voltar atrás. Depois disso nada mais será igual até que uma nova bolha se forme e seja urgente, novamente, reinventar-se.